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octubre 08, 2007

Bolivia El Alto cidade de El Alto, acima de La Paz


Estória curta de uma história profunda 

 

Fiorella Macchiavello

Membro do IELA

 

A história da Bolívia tem seu início no ano de 1500 a.C., ainda na Cultura Tiwanaku, nas proximidades do lago Titicaca. Isso significa que a história deste povo não começa com a chegada dos espanhóis, senão que cimenta suas origens muito antes deles, e no século XXI parece transmutar-se para além da conquista.  

 

As mulheres são guerreiras, mas você não as vê armadas na vestimenta já que são principalmente elas que garantem as polleras [1] e trenzas típicas da vida andina. Porém, levam a luta no mais profundo do seu ser, lutadoras do dia-a-dia, vendendo o mínimo para conseguir o ganha-pão diário.   Sacos feitos com mantas nas costas, carregando de tudo o que se possa imaginar: batatas, laranjas, legumes, roupas.  Outras mulheres carregam inclusive dois sacos nas costas, um leva o filho e outro, tubérculos, para serem vendidos em troca do alimento diário. Mulheres que carregam o peso da vida, da exploração de mais de 500 anos de dominação.  

 

A viagem à Bolívia aconteceu com a finalidade de realizar pesquisa de campo para escrever dissertação de mestrado e o que se apreende lá extrapola o que possa escrever em qualquer termo ou trabalho acadêmico, uma vez que se trata de um povo tão profundo, batalhador e complexo que qualquer tentativa de encaixamento em categorias semânticas tiraria a riqueza desta gente.

 

A vida é uma correria diária, logo de manhã cedo já estão as combis [2] gritando sem parar os destinos que percorrerão. Na cidade de El Alto, acima de La Paz, a vida desperta junto com os quiosques informais, as combis e muita gente andando de lá para cá, comprando, vendendo pão, suco de laranja, dólares, abacaxi, meias, cd´s, dvd´s, canetas, ligações telefônicas [3], tudo em plena rua. 

 

Num país onde mais de 65% da economia é informal, você se defronta com situações muito peculiares, especialmente em El Alto. Não há uma ordenação da vida sob os critérios primordialmente ocidentais, a vida não funciona de cima para baixo, funciona ao contrário, de baixo para cima.  É a população que se organiza e faz, e pede para que seja feito, não é uma Instituição quem define de fora e por cima como e o quê deve ser feito.   A população de El Alto é na sua grande maioria migrante de outras regiões, formada por, principalmente, ex-populações mineiras e pessoas que migraram do âmbito rural.   Não é por acaso que um estudioso, escritor e ator político, o Sr. Simon Yampara,  definiu El Alto como a primeira cidade latino-americana cuja estrutura e lógicas de construção não são colonizadas.   O uso do espaço ainda é público e popular, você vê as crianças brincando nas quadras de futebol, congregações de discussão sendo realizadas de maneira espontânea em forma de roda de vizinhos,   a própria venda de produtos toma conta do espaço público e fica até difícil transitar por algumas veredas, inclusive as festas e desfiles populares fecham ruas principais para comemorar alguma celebração do bairro.

 

Ali se reproduzem diversas práticas rurais e de organização comunitária ancestral, num espaço urbano [4] em que cerca do 70% se considera indígena.  El Alto, cidade auto-construída, e em pleno processo de crescimento (a cada 3 ou 4 meses há a criação de um novo bairro) reproduz as contradições da vida no século XXI. Os homens lutam pela sobrevivência no dia-a-dia do jeito que podem, porque as estruturas postas pela ordem do capital, ordem que colonizou e impôs sua lógica à força de aniquilação de homens e mulheres e de extirpação de nossas culturas ancestrais,   já não dão mais conta para a reprodução da vida dos seres humanos.  Esta constatação é sumamente importante num país onde o receituário das reformas neoliberais foi cumprido até as últimas conseqüências, cujo resultado foi o empobrecimento mais intensificado da população local.   Então, cabe a pergunta: é possível que neste espaço (que é tanto o acúmulo de diversas experiências de organização social quanto o sofrimento vivo e diário da dificuldade de viver e se reproduzir a vida) germine uma mudança social radical ao sistema liberal posto pelo modo de produção capitalista?   A resposta para esta pergunta é complexa, pois não dá para entender a Bolívia sem entender a questão étnica, intimamente vinculada a questão de classe.

 

Pode-se dizer que se está vivenciando uma (re)e-volução neste momento na Bolívia? Há muitas opiniões desencontradas nesse aspecto, principalmente porque as estruturas desde onde se governa não estão (ainda) mudando, mas certamente na Bolívia o que todos sabem é que agora o poder é da população majoritária da Bolívia, a raça indígena, que na Bolívia não por acaso é a classe social historicamente excluída e desprovida dos meios de produção.   E este poder não se trata de um poder qualquer, senão que se trata de uma potencialidade que vem da mobilização social, que vem de baixo para cima e que aposta na mudança e nas concepções de mundo descolonizadas. Porém, grande parte sabe que o desenvolvimento científico-tecnológico não pode ser totalmente desprezado, mas aproveitado e repensado desde outra concepção, desde uma visão libertária que diga primeiro e, antes de qualquer coisa, em relação ao desenvolvimento integral da vida, mas não desde nossa concepção ocidental de desenvolvimento, mas na visão deles.   

 

Nesse sentido, para estudar a Bolívia e os processos que estão ocorrendo lá não basta um olhar europeizante, colonizado, de cima para baixo, com categorias prontas, senão que, metodologicamente, deve-se partir de outro ângulo uma vez que a vida na Bolívia é profunda e tem uma complexidade sócio-econômica e cultural histórica, com outras concepções de mundo que não são unicamente as ocidentais, impostas desde fora, que dizem respeito a um pacote de consumo determinado pelo marketing capitalista.  

 

Posso dizer que, para mim, particularmente, a grande questão é entender como todo este movimento, que vem de dentro da história da organização social da Bolívia, se encontra com o desenvolvimento do capital e se converte hoje em algo que pode ser o início de uma transformação social.

 

 

Em agradecimento ao IELA, em especial ao Prof. Nildo Ouriques, e ao Prof. Dante Girardi, pelo apoio para concretizar esta visita de campo, que faz parte fundamental do processo de formação acadêmica.



[1] Conjunto de saias de diversas cores que são colocadas uma encima da outra, vestimenta típica das mulheres da região dos Andes.  

[2] Tipo de transporte público e informal que é caracterizado por parar em qualquer lugar para subir ou descer usuários, onde você vai bem apertadinho e sabe qual tomar pela presencia e atuação fundamental do cobrador(a) que é normalmente quem vocifera aos gritos para que lugar vai a combi e tem também a função de cobrar e dar o troco aos passageiros.

[3] Existem pessoas que estão com um celular amarrado com uma corrente ao corpo e oferecem a você fazer sua ligação em troca do pagamento que é dado por um indicador eletrônico que codifica o tipo de ligação (internacional, nacional, a celular, a telefone fixo) e o dá o custo da ligação.

[4] As praticas rurais e comunitárias de organização sob a lógica do ayllu (família nuclear andina que envolve diversos tipos de trabalho e organização social) que são recriadas na construção do espaço urbano é tema a ser tratado no trabalho de dissertação de mestrado.


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